Cena do filme Super Man (1978) de Rcihard Donner
[...]
Devido à estrutura mítica do ser humano, o mito é uma realidade também
contemporânea, apesar de vivermos em uma era dos “pós”, pós-industrial,
pós-moderna, pós-cristão. O ser humano não é só razão, é também, em boa
parcela, irracional, emotivo e passional. Assim, o mito faz parte do jeito
humano de ser, de conhecer, de buscar e, portanto, sempre o acompanhará. Por
isso, embora alguns possam considerar o mito como ilusão, mentira ou infância
da humanidade, não devemos considerar o mito como uma infantilização, ou um
saber menor e deturpado, uma vez que o ser humano é complexo de dimensões
constitutivas em relação.
O contexto pós-moderno no qual
vivemos é conhecido como cultura de imagem, do consumo, da provisoriedade. Os
meios de comunicação são instrumentos, a partir das quais se criam e se
alimentam desejos, que acabam sendo transformados em necessidades. Não só isso,
a linguagem visual explora anseios primordiais que carregamos em nosso
inconsciente.
A atuação dos meios de comunicação de
massa na fugacidade das imagens e na rapidez das mudanças sociais e culturais
exalta múltiplos e fugazes personagens que povoam nosso imaginário de forma
também transitória. Isso faz com que as características do mito contemporâneo
sejam bem distintas das do mito primitivo.
No
mito contemporâneo, não encontramos a abrangência e a totalidade características
da mitologia primitiva, que buscava visões de ordenamento de toda a realidade.
Contrariamente ao mito antigo, no qual a adesão era coletiva e seu conteúdo era
conhecido por todos de forma transparente, assistimos, agora, a uma adesão
individual a um conteúdo latente, situado nos bastidores do pensamento e que se
faz presente em novelas, filmes, contos, sendo ele o motivo justificador de
nossas ações para nós mesmos, diante dos outros.
Atualmente, os mitos se referem a
campos particulares e fragmentados, sem necessária articulação entre eles,
como, por exemplo, a sensualidade, a maternidade, o esporte, a ciência. Você
certamente já ouviu falar da “eterna juventude”, ou mesmo a persegue, ou a
beleza de determinada modelo ou atriz ou, ainda, a velocidade ou o caráter de
determinado esportista idealizado e eternizado na memória.
Uma vez existentes o afeto, a fé e a
crença em uma totalidade, mesmo que restritos ao âmbito particular da matéria
em questão, estamos diante de um mito. Dessa forma, por exemplo, a ciência pode
se transformar em um mito, na medida em que se acredita que ela seja neutra,
imparcial, fonte de certeza e verdade absoluta.
Texto
extraído de MEIR, Celito. Filosofia: por
uma inteligência da complexidade. Belo Horizonte: PAX Editora e
Distribuidora, 2014, p.46.

Nenhum comentário:
Postar um comentário